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| PORTFÓLIO-O significado do Ibovespa perto do recorde |
| Seg, 23 Nov, 14h17 |
Por Cláudio Gradilone SÃO PAULO (Reuters) - O Índice Bovespa retomou sua trajetória de alta nos últimos dias e está iniciando a semana com uma valorização de 0,7 por cento, tendo chegado a um pico de 67.365 pontos. Esse nível aproxima o principal indicador do mercado acionário brasileiro do seu recorde do ano. Isso indica o fim da crise? A resposta dos especialistas é desanimadora. Apesar da animação do mercado, a valorização do Ibovespa não quer dizer que a crise foi superada. Muito pelo contrário. O pior já passou --será muito improvável ver outros bancos grandes quebrarem-- mas isso não quer dizer uma volta à situação anterior. Como sustentar opinião tão pessimista? Pela volta aos fundamentos, não necessariamente da análise de empresas, mas da teoria econômica. Quem estudou ao menos um semestre de macroeconomia aprendeu que o consumo não depende apenas de algo fluido como as expectativas dos agentes econômicos. Ao contrário, ele pode ser estimulado artificialmente pela injeção de recursos na economia em momentos de crise e arrefecido pela sua subsequente retirada da economia em momentos de recuperação, as chamadas políticas governamentais contracíclicas. São elas que vem sustentando a recente alta do mercado. As notícias desta segunda-feira são uma boa comprovação. A principal causa da alta da bolsa é uma notícia dos Estados Unidos. As vendas de imóveis nos Estados Unidos subiram 10 por cento em outubro, a maior alta desde fevereiro de 2007 e acima dos prognósticos do mercado. Outro ponto positivo foram as declarações do presidente do Federal Reserve de Chicago, Charles Evans, de que as taxas de juros nos Estados Unidos deverão permanecer próximas de zero até o fim de 2010, ou talvez até mesmo em 2011. Não é por acaso que há abundantes sinais de crescimento econômico. Nunca, nem mesmo considerando-se as políticas expansionistas dos anos 1930, os principais governos congregaram tantos recursos, de tantas maneiras e por tanto tempo para estimular a economia. Por isso mesmo, os bons resultados devem ser vistos com um grão de sal. Em primeiro lugar --e aqui corre-se o risco de comparar dados incomparáveis, mas será um pecado venial-- a recuperação não passou disso mesmo, uma recuperação. Considere-se novamente o Ibovespa. Apesar de todo o dinheiro injetado no mercado, ele ainda não atingiu o recorde de 72.000 pontos registrado em maio de 2008. As cotações subiram, sem dúvida, e muitos investidores perderam essa oportunidade, mas é evidente que a valorização deu-se à custa de muito dinheiro injetado no mercado, sejam dólares, reais, euros ou iuans. Em segundo lugar, boa parte da prosperidade mundial é custeada pelo enfraquecimento do dólar. A depreciação sistemática da moeda norte-americana tem pressionado moedas e commodities, e há limites para esse movimento. Uma alteração muito drástica e muito duradoura das relações monetárias terá não apenas consequências drásticas para a inflação nos países desenvolvidos como poderá afetar bastante as correntes de comércio, elevando a competitividade das exportações norte-americanas e reduzindo a de quem exporta para os Estados Unidos. Como esse cenário é tenebroso demais para ser considerado, o mais provável é que ele simplesmente não aconteça. Ou seja, apesar das declarações em contrário, os banqueiros centrais podem ter de voltar a praticar políticas austeras antes do esperado, gerando mais uma sessão de solavancos no mercado. O que fazer, então? A recomendação para os investidores brasileiros é adotar, na medida do possível estratégias defensivas, tanto na renda fixa quanto nas ações. Os juros brasileiros ainda estão entre os maiores do mundo, mas estão historicamente baixos e podem começar a subir em algum momento do próximo ano, dependendo do populismo ou da ortodoxia do sucessor de Henrique Meirelles, caso o atual titular decida mesmo disputar as eleições de outubro. Ou seja, aplicações pós-fixadas são as mais recomendadas, na tentativa de surfar na esperada onda de alta. No caso da bolsa, as principais ações, ligadas a commodities, deverão apresentar bons solavancos nos próximos meses. Por isso, as melhores recomendações são para papéis voltados para o mercado interno, que ainda está em expansão e deverá ser menos afetado pelas mudanças de marcha da economia internacional. * O jornalista Cláudio Gradilone assina a coluna Portfólio para a Reuters; as opiniões expressas são de sua responsabilidade.
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